Geração

Um ovo gigante tinha viajado há mais de dois séculos de continente em continente na mala de um zoólogo que o tinha encontrado pousado num ninho e que pouco sabia da sua origem quando o recolheu. Encontrava-se agora num museu didáctico onde dezenas de crianças ouviam contar a sua história através das ideias dos adultos. Todas as crianças tinham a sua versão pessoal dos acontecimentos que expressavam em longas redacções. Umas diziam que estava lá dentro uma nova espécie animal, outras esperavam que ali estivesse a esperança de um novo ser humano, outras ainda suspeitavam que estavam ali contidas forças naturais estupendas. Na passada semana o museu noticiara que o ovo se tinha partido.

Pessoas impossíveis

Uma mulher e homem cego faziam juntos uma caminhada.
A mulher tinha pressa de chegar ao destino.
O cego não conseguia andar mais rápido por recear o que se apresentava à sua frente.
A mulher levou o cego às costas.
Chegou a meio do caminho cansada.
Foi então que se lembrou de lavar os olhos do cego, de os raspar na areia e voltar a colocá-los.
Assim fez. O cego já não era cego, mas agora preferia seguir nas costas.

Dia / Noite

Uma violenta queda de neve isolou a escola primária do resto da aldeia. Nos primeiros dias os pais preocupados procuram salvá-las tentando encontrar formas de furar a densa camada de neve que se tinha transformado entretanto em gelo. Aos poucos o tempo foi melhorando, mas por alguma razão o gelo não derretera e continuava a barrar o acesso. A vida da escola florescera com o bom tempo. Inicialmente as crianças procuravam os pais, choravam um choro aflito, mas aos poucos, na companhia uns dos outros, começavam a pressentir as vantagens de uma vida emancipada precocemente.

Muitos anos depois os pais perderam a lembrança dos filhos e estes dos pais e do espaço fora da escola. As crianças pensando que jamais seriam perturbadas pelo contexto exterior como a certa altura conheceram, seguiram um rumo sem consciência da sua singularidade. Na linguagem falada e escrita ainda se reconheciam os traços do que fora ensinado. Contudo a relação com o espaços, com os objectos e as relações pessoais adquiriam características completamente novas.

(Posfácio) O capitalismo infantiliza.
Surpreendentemente estas crianças, mais tarde adultos, eram extremamente responsáveis no cuidado de si próprias e no convívio com os outros.

Oralidade

A nova biblioteca foi construída secretamente a pedido de um déspota com ambições expansionistas. Longe de ser um idiota, este homem era bem instruído e sabia claramente como controlar o povo. A biblioteca sugaria Todo o conhecimento - em rigor, todo o conhecimento de todas as terras conquistadas. A partir do saber dos segredos dos povos dominaria as vontades humanas. A sua ambição não tinha limites. No entanto, o déspota tinha um recanto no seu modo de ser que entrava em conflito com a sua ganância, malvadez e vontade desgovernada de poder - esse recanto remontava ao tempo em que o conhecimento era contado pela boca das mulheres. Assim, a nova construção, tinha paredes de mais de cinco metros de espessura oca. Uma largura demasiado grande que surpreendia arquitectos e construtores daquele tempo. No seu interior foram albergadas mulheres que passavam o dia a contar o conhecimento que fora marginalizado. O principal ouvinte e único frequentador destas mulheres era o próprio déspota.

Corredores

Há muitos anos que tinha um mesmo sonho: que a sua casa tinha mais divisões do que as que conhecia. O sonho produzia nele uma angustia profunda de que estava num espaço que não dominava. Todas as outras vezes sossegou-se contando e descrevendo para si todas as divisões. Chegando ao final e não encontrando nada de suspeito acabava sempre por adormecer. Mas hoje acordou a ouvir o som abafado de um martelo do lado de lá da parede que sabia que dava directamente para a sala. Levantou-se e lançou-se à rua, pondo-se de frente à fachada da casa. Mediu várias vezes as divisões que da fachada podia identificar. E de facto…havia um espaço intermédio inexplicável. E uma porta ao lado da sua por onde entravam e a saiam pessoas que ele estava a ver pela primeira vez, que lhe acenaram e lhe desejaram as maiores felicidades.

O que repousa no escuro

Acontece um encontro casual entre o artista e um anónimo de entre a platéia do concerto que há minutos terminou. O anónimo conta uma história sua que começa agora ao artista que nesta reconhece sua mesma história que terminou há cinco anos. Neste momento, dois desconhecidos, sentados lado a lado, entendem-se numa intimidade única, pela singularidade de cada um e nas possibilidades de algo de tão único como o que sentem existir em multiplicado. A verdade não existe, disse no fim o artista. No entanto acabamos de olhar o mais escuro de nós e um do outro, disse-lhe num sorriso um dos anónimos da sua audiência dessa noite.

Sub

Os grandes centros urbanos albergam comunidades de homens e mulheres que se recusam a viver à luz do dia. Os canais abertos para a passagem dos metros subterrâneos estão repletas de inscrições, sinais que ajudam, mesmo na mais completa escuridão, que um elemento de uma determinada comunidade não se perca e que encontre sempre o seu caminho de volta. Infelizmente estas formas de viver na cidade são já conhecidas e motivo de estudo. O seu reconhecimento pelas autoridades levou-as a procurar outros níveis mais baixos onde não fossem encontradas. Os canais de saneamento, embora húmidos e repletos de animais indesejáveis, foram durante algum tempo uma possibilidade. No entanto, novos canais foram encontrados: as ruínas de antigas vivências sobre as quais se construíram sucessivamente cidades cada vez mais avançadas. A primeira comunidade a ocupar estes canais é particularmente dedicada ao estudo em reclusão, debatendo-se especialmente com o conceito do retorno – o retorno do novo no mesmo e em todo o lado.

Jogo

Três jovens jogavam às cartas e tentavam enganarem-se uns aos outros. Tinham passado assim dias a fio esbanjando fortunas de valor incalculável. Foram colocadas sucessivamente em cima da mesa fabulosas heranças, das propriedades à beira rio às jóias da família. Nada, absolutamente nada os demovia de continuarem a jogar num contexto que se aproximava da mais pura abstracção. Como crianças em festas de aniversário, aborrecidas com os brinquedos espalhados pela casa do aniversariante, e fartas dos palhaços contratados ou dos ilusionistas dos truques de lenços, fabricavam bens que não tinham apenas para se manterem animadas. Assim se mantiveram os três jovens que subindo a fasquia apostavam terrenos tão vastos que equivaliam ao terreno coberto por certos países. Quando se sentiram finalmente esgotados e prontos para terminar a sessão procuraram um vencedor de entre os três. Não encontraram um critério económico que lhes servisse de ajuda uma vez que os valores eram simplesmente impossíveis de apurar. Foi então que procuraram infinitamente novas estratégias de jogo para que este continuasse, talvez num outro dia.

Zona Teste Z

O jardim resplandecia a brancura da pedra calcária e das plantas de folhas brancas e sem flores. O branco reflectia a pouca luz que, por entre as nuvens, ilumina os dias desta zona terrestre. Uma chuva infinita caía, noite e dia, como reacção à ausência prolongada da utilização do petróleo. Era a Zona Teste Z do deserto, onde novas formas de viver eram experimentadas. Todos os habitantes da Zona Teste Z, muito atentos ás reacções dos experimentos, aprendiam a medir felicidade e tristeza a partir de análises clínicas feitas diariamente. A chuva procurava, harmoniosamente, equilibrio com a brancura estudada. As medições eram exactas e os habitantes eram emocionalmente iguais.

O descontrolado conhecimento

Uma raça alienigena regressa à Terra depois de muitos mil anos de ausência. Certos de encontrar ainda deficiências e problemas, vinham preparados para ajudar, mais uma vez, no seu desenvolvimento, para que um dia, próximo da extinção do seu próprio planeta, a transportação de toda a população aconteça da melhor forma. Do seu lado, têm aplicado alguma alterações genéticas de forma que, ao longo das gerações, se tornem físicamente idênticos aos humanos.
Chegados à Terra enconram formas de comunicar que implicam as mãos e não o cérebro, que implicam a utilização de satélites artificiais em vez dos recursos naturais. Todo conhecimento dos planetas, das ciências empíricas tinha ficado para segundo plano. O Valor do artifícial era maior. Os edifícios glorificavam esse artificial e não o lado espiritual. Confusos, recolheram amostras, examinaram comportamentos e sem saber que fazer voltaram para procurar novas formas de lidar com a presente situação. O futuro era agora e de novo, ao fim de muitos mil anos, incerto e instável.

Os sentidos perpetuos

Um vale coberto de vegetação densa e árvores de grande porte era habitado por gente silenciosa. O lago cobria o fundo do vale. Não havia casas algumas nas margens do lago, estas situavam-se mais acima, na encosta e até ao topo. As pessoas da aldeia procuravam distância da escuridão profunda a que as árvores submetiam a terra. Havia uma casa que era inalcançavel de outra forma que não de barco porque futuava no centro do lago. O ser solitário que habitava a casa tinha consciência dos moradores através da visão do fumo das lareiras e dos balões e papagaios coloridos que as crianças largavam em direcção ao céu. Se havia barulho que ecoava no vale era o que ele produzia. Os demais habitantes não viam a casa porque estava escondida pela vegetação, no entanto ouviam o som do ser. Nesta relação de sentidos passaram-se mil anos de mitos. Tinha acontecido um filho indesejado que era deixado a navegar num barco. Era então criado pelo ser que habitava a casa do lago. As gerações do mesmo ser sucediam-se em segredo. As gerações da aldeia também. Incomunicáveis mas sempre presentes, uma silenciosa e a outra invisível.

Caderno diário

Nos dias de escola leva o caderno amarelo que em tudo se parece com um caderno escolar. Não tem amigos mas não vai para o recreio ver os outros brincar. Ninguém dá pela sua aparência ou pela sua ausência. Encosta-se à janela e olha a vida passar. Tira notas sobre todos os empregados e professores. Ninguém sabe o que ela sabe. O seu conhecimento do mundo dos adultos é vasto. Dado esse seu pequeno vício, quando o detective apareceu na escola para investigar um crime de homicídio, que tinha como principal culpado o director, pode analizar as situação comparando-a com outros possíveis culpados. As provas eram fortes mas as razões impossiveis de entender. Deixou que o prendessem. Sabia que assim terminaria uma má política escolar. De forma a tornar a situação ainda mais favorável, enviou umas fotos e um texto insinuador sobre a secretária do presente director e o mais provével futuro director, um romance bastante cor de rosa. Escondeu alguma tendência pedófila da empregada da secretaria que foi eleita (surpreendentemente) directora.

Colectiva

As projecções inundavam um pavilhão gigante e o som atacava o exterior mas mais ainda, o interior do corpo de cada elemento da platéia. A música faz-se sentir por dentro, literalmente. As pílulas, de tamanhos diferentes, à medida do peso e idade de cada indivíduo, são entregues à entrada. De todos os experimentos estes foram os mais bem sucedidos, são bons substitutos das latas e plásticos que contêm líquidos pouco limpos e nada saudáveis. Sem ressaca, completamente controlados pelos serviços de saúde e que, dependendo do gosto estão divididos segundo os estímulos que provocam nos vários sentidos. O desejo do colectivo faz direccionar a música e o fluxo das imagens. Os concertos mais agressivos acontecem quando as pessoas se apresentam com uma fúria interior. Uma festa pode começar de forma agressiva e no entanto terminar de forma apaziguadora. Estes concertos são momentos de diversão, onde legalmente se podem tomar estímulantes, mas são também momentos em que o indivíduo tem a noção clara da sua acção no colectivo. Os artistas são figuras que não se vêm.

Linhas

Um soldado rasteja no plano que separa o céu da terra.
Tudo o que está morto e em decomposição - as folhas, os animais e os outros soldados - infiltra-se escorrendo numa linha vertical, atenuando a evidência da separação.

Quando o soldado deixa a missão regressa a casa rastejando.

Animal homem

Evocavam-se as penas das aves que davam asas aos sonhos. Evocavam-se os corpos ágeis dos felinos para que o movimento corporal fosse mais fácil. Evocavam-se mil animais e acreditava-se que a cada um dos presentes pertencia as características, em proporções diferentes, de cada animal. O poder dos humanos aumentava ao sentir a ligação com todo o mundo animal ao qual pertencia por afinidade biologica e ritual.No centro, iluminada pelo fogo da fogueira, alguém pensava num animal maldito que ninguém se atrevia a evocar. Animal, que, se evocado, era capaz de aniquilar todo o frenezim que é raíz das forças interiores necessárias para o início de um novo cíclo em nome colectivo e do individuo. Evocar-se.

Eu falo

Todos nós falamos sozinhos. A explicação é simples: verbalizar é expôr as ideias de forma racional. É isso que fazemos mesmo quando estamos sem o outro por perto. Duas partes distintas no nosso cérebro, ainda grandes mistérios do conhecimento, desempenham as suas funções durante a racionalização de uma ideia pela fala: uma que pensa e a outra que verbaliza o pensamento. Falamos quando estamos sozinhos. Mas estaremos mesmo sozinhos? Se entendermos o outro num sentido que abrage o invisível então é possivel uma explicação mais concreta a nível da função do sistema cerebral e manifestação. Ambas as partes apresentam, com ou sem a presença visível de um outro o mesmo comportamento, o que leva a pensar que a solidão não existe. Se tomarmos a inexistência de solidão como fundamento, este pode ser o princípio para estudar o invisível como uma presença total. Na compreenção do invisível pode estar a chave de muitos mistérios. Descobriremos um outro mundo paralelo a partir dos indícios deixados nas nossas funções biológicas.

Constelações w

Um novo museu foi encomendado pelo rei a um arquitecto com fama e reconhecimento em toda a Europa. Como única imposição apresentada: o museu teria que traduzir o espírito do tempo. O arquitecto tomou este pedido como um desafio pessoal. Entregou todos os trabalhos que tinha em mãos aos assistentes e dispôs-se a aventurar-se no que seria a sua mais importante obra.

Passados seis meses entregou o resultado da sua devoção (quase obsessão): o modelo em maqueta de um museu que se parecia mesmo com um crematório. O rei pediu-lhe explicações.

Constelações y

Tinha travado conhecimento com a dissociação do corpo e da alma, pela primeira vez, quando uma criança da sua idade morrera de leucemia. Da janela do seu quarto, sentada numa cadeira para chegar ao peitoril, viu a marcha lenta que acompanhava a menina à sua morada final. Na frente seguia o padre, na cauda as mais importantes figuras da cidade, todos de fato de cerimonia apresentando nas expressões da face um forte sofrimento.

Naquele dia nada fez senão pensar no aspecto que a menina morta tinha quando enfiada num gavetão. Durante a noite construiu imagens da menina com os olhos esbugalhados e a pupila muito pequena, que sorria e punha a língua de fora. Indignada com a má-criação, tentou perceber porque é que tinha chegado a tal fabricação daquele anjo. Descobriu que sentia uma inveja aflitiva da morta.

Como as pessoas em geral sentem.

Constelações x

Numa província do interior norte de Portugal caiu ininterruptamente neve durante meses a fio. Os efeitos da neve fizeram-se sentir nos cultivos deixando a população sem recursos alimentares. Foi assim que as crianças começaram a comer neve para manterem o ritual da mastigação. Enquanto se alimentavam, imaginavam que sentiam no paladar sabores extraordinários. O que começou como um jogo infantil chegou aos ouvidos dos adultos que – possivelmente levados pela fome e pela falta de discernimento – começaram a fazer o mesmo. Durante este estado de euforia um homem ia acumulando numa gruta a neve que apanhava.

Terminada a queda de neve, a necessidade estava já instituída – todos sentiam urgência em comê-la. Foi então que recorreram ao homem da gruta onde a neve se conservava intacta. Mas ali apenas encontraram esculturas de gelo polido de um estranho valor estético.

Constelações

Na região nortenha de um país europeu perdurava a estranha tradição de celebrar a matança do coelho por altura do Outono. Oficialmente seria uma comemoração de uma santa canonizada no séc. XVIII, mas mais não era do que a actualização de um ritual pagão anterior às conquistas romanas daquele território. A população das pequenas vilas saía de casa a meio da tarde e caminhava sem descanso até de madrugada levando um bolo nas costas. Cruzavam rios e ribeiros, subiam um grande monte e voltavam a descê-lo, até chegarem por fim a um descampado, praticamente sem vegetação. Aí encontravam-se muitas pedras, muito diversas em formas e cores, que serviam de bancos aos viajantes. Mal estes chegavam ao seu destino sentavam-se, descalçavam as botas, retiravam o bolo do saco e esperavam que alguém os servisse com um pedaço de porco em substituição do coelho que era naquela altura do ano escasso.

A fama desta romaria era contudo secreta e comunicada entre as gerações no espaço limitado das quatro paredes. O estar ali, com a natureza, tão longe da civilização, sentir o sabor da carne mal cozida e sem tempero (alguns chegavam a comê-la crua) era considerado selvático. E era. Depois de saciados da fome mastigavam ervas e bebiam licores que os faziam viver o dia e a noite sem distinção esquecendo qualquer obstáculo formal aos seus impulsos mais primários. Regressavam a casa dois dias depois cansados e ainda eufóricos.

O companheiro invisível

Estava perdida e sabia disso. A noite tinha chegado sorrateira enquanto, atarefada, procurava o caminho de volta.
Luz por entre a silhueta das árvores é indicação de presença humana. Uma cabana. As sombras de pessoas passavam na janela e portanto bateu à porta. Ninguém respondeu e portanto abriu a porta. Comida na mesa, lareira acesa. As sombras não eram humanas mas labaredas. Esperou e acabou por comer parte da comida e adormecer sentada com os braços em cima da mesa. Nos seus sonhos o fogo falou-lhe: "Chamei-te desde a casa que habitas e agora ficarás aqui. Serás a minha companhia e eu tomarei conta para que tenhas sempre tudo o necessário". Acordou do sonho feliz.

Primavera

A música que ouvem os habitantes da cidade condiciona as suas acções, movimentos e emoções. O fenómeno desta relação tem sido largamente estudado desde a antiguidade. Os estudos, sempre em actualização, permitiam criar música cada vez mais direccionada para estados da alma cada vez mais específico, induzindo-os, provocando-os até.
Depois da cessação das estações do ano, a música da cidade ganhou uma nova dimensão, tornou-se fundamental para o quotidiano. Na Primavera todos os habitantes parecem mais doces, felizes e dispostos a amar. Nessa época do ano vendem-se muitas flores sem pé nem planta que desabrocham na palma da mão. Esta é uma dádiva comum entre os recém-namorados. Estas flores têm um som muito subtil e até encantador ao abrir. Dizem que dá sorte e dá o poder de prolongar o romance. Na verdade, as vibrações da música (uma invenção recente de um ciêntista músical sul-africano) provocam, no interior do corpo de quem segura a flor, uma libertação de químicos relacionados com os sentimentos do amor. Uma invenção ciêntífica completamente apropriada pelo senso comum, pelas crenças populares urbanas e que se tornou num ritual social.

Uma mulher de fé nunca está sozinha e nunca se aborrece.
Esta mulher que dou o exemplo, enquanto dormia sonhava sozinha e quando acordava pensava sozinha. É natural que nada ficasse fora de si e que as imagens que via eram por si pintadas. Um dia podou uma cerejeira e viu uma cobra corada de vergonha – a cobra disse: “quero-te enganar mas não consigo!”. Num outro dia apanhou uma centopeia no meio dos figos – que lhe revelou – “quero-te morder mas é difícil”. Assim, se sucediam os encontros, felizes e naturais, sem problemas de redução ao mesmo.

Macaco

Existia um intervalo desengraçado entre a racionalidade daquele ser e a sua biologia. O que sentia a meio do dia era fome, mas era uma fome física de comer para preencher um vazio estomacal. Mas se pensasse bem, não tinha qulquer vontade de comer. Imaginava que este sintoma se devia à sua opção em não comer carne. O corpo comunicava-lhe a falta de proteína animal. Mas ele, índividuo formado, com bons sentimentos e excelente intenções tentava a todo custo controlar esses impulsos mais básicos – para ele considerados de bárbaros.

Estava já há uns anos neste regime e não lhe assombrava sequer a ideia de alterá-lo, até que passou pelo jardim Zoológico e comeu um macaco.
Claro está, racionalmente ele nunca o comeu de facto. Mas sentia-se melhor.

Acidente

Ás Sextas fazia meia hora de natação. Depois encontrava uma amiga para o almoço. Eram hábitos de uma vida calma, regulada e sem solavancos. A caminho da piscina, numa manhã muito enevoada e cinzenta, a sua vida estagnou-se. A razão era uma criança que passava na rua e à sua frente se transformou numa borboleta. De volta ao caminho para a piscina tentou fazer a meia hora de natação mas o ritmo estava diferente. Ligou à amiga e não foi almoçar com ela. Chegada a casa nesse dia fechou as portas e as janelas, pediu inetrnamento e foi feliz para o resto da vida.

Javali

Numa embarcação que seguia no sentido dos Açores fora descoberto um homem que viajava clandestinamente. A tripulação não via com bons olhos a aceitação de clandestinos pelo capitão que entusiasticamente os convidava para a sua cabine para lhes oferecer vinho e codornizes requentadas.

Quando a embarcação foi colhida pelo mar desgovernado no centro de uma tempestade o capitão deu prioridade ao clandestino para se socorreu de um barco de borracha e se lançar ao mar. A tripulação revoltou-se e impôs-se armada diante do capitão. Estavam enraivecidos com a natureza e com o destino que se aproximava. De rompante o clandestino ataca a garganta do benfeitor que cai no chão morto sem qualquer hipótese de ser reavivado.


Numa das ilhas dos Açores viveu durante muitos anos um clandestino de grandes peitos descobertos que à noite alimentava um javali selvagem de codornizes e vinhos licorosos, encarnação de um mártir.

(nota de leitura: o clandestino era uma mulher)

Verão alucinante

Foi um Verão em que choveu muito. Sempre e sem parar durante mais de meio ano. É também um verão muito quente. A combinação dos materiais molhados com o sol causa efeitos deveras surpreendentes. Há relatos de grupos de pessoas que vêm cores e formas a flutuar acima das suas cabeças. Há amantes que enlouquecem aos pares. As causas estão relacionadas com a desidratação por enjoo à tamanha quantidade de água que cai do céu e que estagna por toda a parte. Estas alucinações individuais, aos pares e colectivas espalham-se por toda a parte, tal como a chuva. Procurou-se um diagonóstico e uma solução. À falta de voz segura por parte dos médicos. Tentaram-se os magos, mágicos, visionários, artistas entre outros.

Férias

Certo dia uma loja de penhores decidiu abrir as suas portas com um novo letreiro “penhoram-se vidas”. Até ao momento a loja continha os mais refinados objectos feitos em ouro (anéis, relógios, pulseiras, malinhas de comprimidos, canetas, suportes de batons, etc.), dispunha para venda também objectos feitos com pedras preciosas e cristais de imitação, algumas peças de vestuário em couro e pele de crocodilo e pouco mais. O letreiro que anunciava a mudança estava por cima de uma vitrina vazia.

Na manhã em que a loja abriu estava já um cliente à porta, vestido de preto da cabeça aos pés, com sapatos pontiagudos dramaticamente envernizados, chapéu fora de moda colocado de lado mal cabendo na cabeça e uma bengala esquisita na mão. Esperou que o dono desse por ele e ao mínimo gesto irrompeu com a mão para a frente para o cumprimentar. Apresentou-se dizendo que era um simples cangalheiro, mero agente dos desígnios divinos, com falência à vista uma vez que a saúde não era um problema nos dias que corriam. Mas o dinheiro era – disse peremptoriamente. E, desdobrando-se em explicações disse com honestidade que aquela ideia era tão boa que apenas lamentava não ter sido ele o primeiro a tê-la... Depois de uma breve pausa de silêncio forçado, adiantou-se então a fazer a proposta que constava do seguinte: ...e se as pessoas pudesse morrer por umas horas, dias ou anos para não terem gastos? Cancelando temporariamente a sua existência? Assim, como uma penhora...Claro que mal pudessem e recebessem, talvez, uma herança, podiam voltar ao que eram...Era como se fossem de férias para outro sítio.

Bruxa

Num campo de férias um grupo de pessoas de todas as idades jogava um jogo tremendamente excitante – uma espécie de “quente e frio”. Uma monitora tocava no piano notas ora graves ora agudas, consoante os participantes se aproximassem ou se afastassem do esconderijo do tesouro secreto. Passadas algumas sessões descobriu-se que quem encontrava o tesouro era sempre a mesma pessoa, a idosa Senhora Chanpu. Desfeita em risinhos e lágrimas de emoção mostrava-se ainda em forma para receber os abraços ternurentos e piedosos dos seus companheiros. Uma criança mal-educada teve o atrevimento de lhe perguntar porque acertava sempre no sitio do esconderijo e ensinou se por acaso a Senhora não seria uma bruxa... A criança estava claramente incomodada por ter perdido aquele tesouro cheio de bombons de licor e queria que se fizesse justiça à sua maneira.

A Senhora Chanpu atrapalhou-se um pouco a acabou por afirmar que era francamente incapaz de distinguir uma nota grave de uma aguda, mas conservava uma visão de água e podia muito bem ver quando a monitora sorria e revelava o canino brilhante não deixando espaço para dúvida, mal o canino aparecia o tesouro estava próximo.

incompleta!

As duas raparigas representadas na pintura de Renoir sentadas ao piano estavam apaixonadas por Goethe. Contudo o poeta vivia subtraído aos seus sentimentos dedicando-se exclusivamente ao estudo da metamorfose das plantas procurando um modelo de planta que servisse para reconhecer todas as outras plantas. O estudo em processo, prolongado por mais de vinte anos, era notavelmente exaustivo e rigoroso. De modo que o poeta, decidido pela ciência sem ter para isso estofo, esforçava-se muito para não correr o risco de ser motivo de chacota da elite de cientistas da academia.
Certa tarde de sol as raparigas terminaram os ensaios mais cedo decididas a encontrá-lo durante o estudo. Levavam-lhe um ramo de flores variadas, em cor, forma e textura, supondo que assim o poeta e cientista lhes daria maior atenção. Porém, tinham-se esquecido que eram feitas de óleo e ao contacto com primeiro raio de sol desfizeram-se em lodo cinzento. Estavam tão motivadas que o lodo que tinham formado corria pelo campo procurando Goethe. Quando o encontraram meteram-se sorrateiramente nas botas, entranhando nas ranhuras.
Chegada a noite, Goethe prepara-se para se deitar. Julgando-se sozinho naquele quarto da estalagem onde estava hospedado, dirige-se às botas e notando no lodo, espesso e em abundante quantidade, forma com ele a planta das plantas - modelo universal.