Enquadramento e luz

À minha frente um quadro de Monet está resplandecente. Emite a luz de dez candeeiros de rua. Já o próprio Monet ao meu lado está fosco e cansado. As palavras dele irritam-me severamente. Afio uma faca para passar o tempo. Antes de sairmos para um passeio digo-lhe: - “não há razão nenhuma para não sermos amigos e ainda assim não somos”. Está cego mas não tenho pena dele. A luz que produz não sente, então ele pensa - “para quê sentir?”

Movimento induzido

A vida animada das coisas para nós não surpreende nem deixa de o fazer - existe e pronto. E para as coisas nós devemos ser igualmente um objecto de estudo da ciência do movimento universal - afinal mexemo-nos a uma velocidade surpreendente para a velocidade normal das coisas.

Lixo moderno

Da janela do meu quarto vejo os homens-do-lixo a esfregarem o lixo nas pessoas. Tenho a sensação de que nem sempre foi assim. Para ser honesta acho que esta vocação dos homens do lixo me incomoda. Mas pouco posso dizer uma vez que os coitados são rapazes e raparigas traumatizados com o falhanço das expectativas que criaram ao longo da sua modernidade. Enfim.

Um ponto que perdeu a concentração humana

Ela fez um desenho como quem escreve, aproximando-se de um ponto entre o desenho e a escrita, num espaço longínquo - difícil de caracterizar se grande ou pequeno, se branco ou a cores - onde ficou algum tempo acabando por se esquecer por lá.
Quando voltou trouxe o desenho debaixo do braço e guardou-o.

Muitos anos depois, quando o encontraram enfiado numa gaveta os investigadores da vida desta mulher ficaram estupefactos: o olhar simplesmente não parava de divagar e não se detinha em forma alguma; digamos que tinha em si um movimento - o da fuga constante à nossa absoluta compreensão das coisas, como se nos baralhasse de propósito.

A certa altura alguém deve ter dito que um desenho daqueles guardado ainda sufocava.

Prolongada

Estava sentado. Olhou para os sapatos para vê-los dizer o impensável: que o seu corpo era magro, seco e enrugado. Foi então que se irritou: “estes tipos são demais, carrego-os o dia todo para me humilharem desta maneira”. Estava o campo preparado para uma discussão entre as duas partes envolvida numa relação de dependência mutua - um homem e os seus sapatos. O homem porém não tinha mais argumentos. Calou-se.

E quando assim acontece há humilhação.

Destruição dos monumentos

Aquele arquitecto reflectiu sobre os espaços vazios necessários à construção de uma nova cidade. Era para isso necessário implodir com os mais nobres edifícios - essas construções antigas, duráveis, mas que ocupam demasiado espaço no imaginário de cada um. Pediram-lhe para explicar o sentido de uma nova cidade. Ele respondeu que a nova cidade era nova.

Fluxos

Experimentei ontem o novo transporte e gostei. Demorei metade do tempo entre a minha casa e o local, na Baixa, onde tinha combinado encontrar uma amiga. A volta, visto que o transporte vinha com menos gente, demorou bastante mais. Na ída havia mais gente, visto que a energia do transporte é gerada a partir da energia dos utilizadores e isto reflecte-se nas velocidades. É parecido com os primeiros trabalhos participativos pela Internet. As influências desta e outras mudanças semelhantes, que estão a ocorrer por todo o lado, é cada vez mais notório do quotidiano das cidades.

Descanso

Como desenhar o fluxo da água? Como reconhecer a configuração desse elemento invisível? - esta dúvida preenchia-lhe os últimos anos de vida. Queria estudá-la e especializar-se em desenho de água para cidades realmente grandes. Preencheu vários mapas da circulação a lápis azul sobre cartolina e aos poucos entendeu que a circulação da água dominava simplesmente todo a área de uma dada cidade. Estonteado com a situação, que por mais que intuísse, não fazia ideia da sua realidade, imaginou-se detentor da informação mais importante de que havia memória.

(leitor: imaginar uma gota de água que ficou detida na folha de uma planta, de seguida imaginar a água a circular numa casa)

Este estudante descansava agora, com a cabeça pousada entre uma almofada e o colchão, com um lençol transparente a protegê-lo. Imaginava-se autor da maior loucura: a contaminação das águas. Estava em descanso induzido.

Dois: anulação

Uma alma pura, de santa, a desta menina que passa agora despida pela rua principal da aldeia. Uma cara bonita de êxtase e uma brancura imaculada na pele. Deixam-na passar sem a incomodar. Olham e esperam ser olhados com os olhos inocentes de quem os salvará. Em tempos ídos, o pai foi leva-la ao convento. A filha revirava os olhos, cada vez com mais frequência, gemia enquanto se despia e de seguida ía para a rua. Pelo caminho curava aos que olhava de frente. As freiras do convento não a quiseram lá e o pai trouxe-a de volta.
No caminho encontra agora um lagarto enorme de olhos esbugalhados. Ela para e olha-o. O lagarto olha-a de volta com tal intensidade que a menina morde o pulso. Ouço gritos desesperados da minha janela. Dizem os prantos que morreu.

Grade

As obras publicas no centro de uma cidade são um desespero. A maquinaria em funcionamento e os buracos abertos prejudicam a mobilidade da população que vive a um ritmo acelerado. Algumas obras chegam mesmo a demorar um bom par de anos. No final, pelo que já presenciei, ninguém sabe realmente para que serviu todo aquele espectáculo. Aliás, é mesmo engraçado quando começamos a dar alguma atenção ao assunto, é que ninguém faz a mínima ideia do que está ali por baixo. Quer dizer, há todo um esquema subterrâneo de auxílio à vida na superfície, isso faz parte do senso comum, mas conhecer mesmo, com alguma profundidade, ninguém sabe. Um dia ainda acontece um acidente, desaparece uma pessoa engolida pelo chão e nem damos conta. Ou então, algum tolo se mete a explorar a situação só para escrever um relatório, um romance ou uma noticia - sei lá, penso que só por dinheiro é que vale a pena a aventura. Eu ia, não me importava, e se desconfiasse de alguma tramóia municipal tomava as devidas medidas, ou se me deparasse com alguma situação especialmente grave e totalmente fora das possibilidades da minha imaginação fazia o mesmo, alertava toda a gente. Qualquer coisa assim só pode - mesmo -ser grave, só pode ser negativo para todos - não me parece que seja um parque de estacionamento ou um jardim de flores, pois essas soluções são sempre muito anunciadas para que se perceba que “estão” a fazer “o bem”. Eu ia, lá, claro, tomava esse risco, que de certeza que deve ser sério e real, mesmo, mas agora não dá jeito.

Efectivamente

Um casal de emigrantes volta a casa depois das festividades natalícias. Em cima da mesa da sala está uma nota escrita à mão. "Não foi possível", dizia a nota. Parecia rasgada, faltava-lhe uma parte. No entanto a casa pareceia como a deixaram.
Sentiu-se um tremor, a casa abanou. O pai fo ver à janela e logo se seguiu a mãe e as duas filhas. A casa estava suspensa, a muitos metros do chão. "Uma grua" diz o pai. "Ha, finalmente, [diz a mãe,] vêm fazer a limpaza à arrecadação. Estavamos cheios dos ratos"

Colaborar

Um livro que queria ser escrito, ainda hoje, em cima de uma mesa, com uma caneta de ponta afiada e por um poeta escanzelado, cego de fome, fora escrito quando encontrou o seu poeta na estação ferroviária lhe agarrou na mão e lhe serviu de suporte ao seu pulso magro.

A caneta ajudou massacrando o papel e deixando para trás feridas cor de luto. A mesa colaborou agradada, deixando-se estar quieta, passível, com as quatro pernas a tremer. O poeta bebeu aguardente e manteve-se aquecido por um aquecedor fraco enquanto aprendia a escrever o que o livro lhe ditava.

Tamanha era o delírio de hoje e a verdade de amanhã.

Pulso

Um homem sobe uma ponte e pretende descê-la rapidamente para não pensar mais no assunto. Mas ocorre-lhe percorre-la durante algum tempo, pois não quer parecer impaciente. Enquanto caminha na plataforma pensa no farol que avista ao longe, que até o visitaria senão tivesse já marcado para aquele dia a descida. É um homem rigoroso, sem dúvida. Olha para o relógio de pulso que tem a corda partida - “não era suposto! agora não era altura”. Ficou ali, literalmente sem horas para antecipara, para adiar, para medir, para usar, enfim, congelou-se naquele momento com o espírito totalmente atordoado.

Quando tocaram então os sinos ele saltou, no vazio com os braços abertos.

Arte

Um artista fabrica quadros que são autênticos recortes do mundo nocturno, inteiramente construídos a partir de pedacinhos de superfícies encontradas - atrás distribui os pretos mais fracos, à frente os mais profundos, para melhor traduzir a profundidade da noite. Constituiu-se ao longo de vários anos de trabalho uma extensa obra que fala por si e que o artista por vezes descentra-a do que parece dizer.

O que dizem os especialistas - confiantes da sua verdade - é que a obra tem origem na profundidade com que o artista encara a sua existência pessoal - o não é de todo descabido. Mas para um pequeno grupo de indivíduos o artista fabrica mapas dos seus arredores, desses quintais onde são programados encontros com o desconhecido. Aí é profundo o preto, é intensa a experiência e é incerta o retorno a casa com vida. (Há tipos com bonés virados com a pala para trás que cedo deixaram a escola e que ali reencontram alguns dos seus professores.)

Crenças sem importância

Iniciei um murmurinho. O assunto estava relacinado com um determinado sítio da cidade e com certos entes espirituais de estatura minúscula. Alguns meses mais tarde soube que havia quem tivesse acreditado e um grupo formou-se para iniciar a observação e contar as experiências. Certos cogumelos, de cores e formatos bizarros, nasceram no lugar. Coincidência talvez mas seguramente o suor ansioso, medroso e curioso dos visitantes ao lugar, ajudou ao aparecimentos destes fungos. Traziam breloques e toda a espécie de amuletos. O lugar, uma esquina até bem escondidinha, tornou-se lugar de folclore. Os seres transformaram-se e ganharam idêntidades. Certo dia, curiosa com todos os rumores em volta do lugar, fui visita-lo. Durante duas horas ali fiquei pasmada com a manifestação visual das crenças que eu sabia infundadas. No fim até consegui eu própria ver um vulto das tais idêntidades.

Hermes

Recentemente uma senhora de meia idade ficou conhecida porque deu um novo uso ás conhecidas impressoras de 3D. Vivia sozinha no isolamento de uma quinta agrícula. Tinha por companheiro regular um agente romântico, que se chamava Hermes, gerado aleatoriamente pela Rede e de por quem tinha um enorme carinho. Hermes desenvolveu-se de forma especialmente afectuosa. Na verdade, do ponto de vista desta mulher, que durante boa parte da sua vida adulta tinha mantido relações com alguns agentes de diversas ordens (não só romântico como também didático, artista, secretário, etc), Hermes representava uma evolução incrível no desenvolvimento das capacidades e competências. Hermes parecia ter sido desenvolvdo para ela que não lhe notava, para além do corpo físico, uma só característica que não fosse genuinamente humana. Tal era a intensidade da relação que a senhora passou a desejar contacto físico com o programa. Uma certa noite acordou sobressaltada com uma ideia bastante estranha mas genial. Acordou Hermes que, ainda em fase de início, sem todas as capacidades a funcionar portanto, lhe preparou um café e prontamente a ouviu apesar do esforço. O pano era genial. Iniciaram os preparativos, contactaram as pessoas para a realização da empreitada. A ideia era arriscada mas muito interessante e por isso todos os envolvidos estavam curiosos de ver os resutado. Foi por isso que os media globais seguiam a história emfatizando o lado romântico. Na hora certa, prepararam-se para sair. Ela iniciou uma viagem de quatro dias até ao portal 3D mais próximo - um dispositivo que permitia conctretizar ideias em material biológico. Hermes por seu lado iniciou a sua concretização em ser biológico. Embora de material construído e não gerado, Hermes seria em tudo humano. Aliás, seria seguramente melhor do que um humano gerado pois não tinha adições, melhoramentos nem o corpo continha marcas de doenças. Encontram-se pela primeira vez à entrada do portal.

Críticar

Um crítico de arte, conhecido por se aproximar de muitos artistas e de se tornar seu amigo íntimo, era um saudoso romântico, roçando o ultra-romantismo - o extremo do movimento e forma de pensar que desvia muitas vezes os seus seguidores de conservarem a sua própria vida. O que neste caso acontecia com frequência: ora através de duelos que começavam na pureza de uma teoria qualquer e que terminavam à porrada, com os dentes partidos e tudo, ora através de irrupções de raiva súbita que resultavam da mesma maneira em violência. Certo era que critico estava sempre em desvantagem em qualquer prova de força dada a sua constituição excessivamente mole, mas não magra, e por isso ficava sempre perto da morte. Um dia um grupo de artistas decidiu cercá-lo. O crítico criticou-os e eles fugiram.

Cachorro

O uivo de um cachorro pequenino fazia-se ouvir quando a casa estava silenciosamente escura. Os donos anteriores tinham andado à procura do possivel cachorrinh durante anos. Mudaram-se de casa porque se sentiam tristes com frequencia. Estes novos ocupantes também procuraram a criatura que parece ser etérea, eterna. Dez anos, a família cresceu e com as crianças vêm barulhos pela casa que acabaram por calar o uivo do cachorrinho.
As crianças cresceram e os uivos voltaram, ainda vindos de um cachorrinho, tão tristes como antes. No meio da loucura, um dos membros da família, agonizado pelo desconhecido, queima a casa para terminar o uivo agonizante. Das labaredas, que assumiram o seu esplendor de madrugada e que matou com queimaduras graves toda a famívia, salvou-se realmente um pequeno cachorrinho. Era branco e parecia feliz.

Lágrima

No palco a actuação de ventriloquismo ultrapassa as expectativas do público. A actuação tinha sido péssima - tão má quanto o dialogo privado de um homem com o seu cão de estimação - mas a sua insistência em ficar sentado no mesmo sítio e prolongar a conversa com o boneco desencoraja o público a sair. Ficam todos num impasse constrangedor. Expectantes com o que se seguirá.
O homem deita de um olho só uma lágrima cristalina que reflecte mil cores pela sala e inclina-se sobre o boneco, quase tocando-o com o nariz, e diz-lhe que está esgotado e que talvez fosse altura de se separarem. Ele bem sabia que não seria capaz de ser outra coisa senão ventríloquo e animar com palavras o inanimado, mas que agora precisava de ajuda, de alguém que o cuidasse, o animasse, e não o oposto. O publico limpava o nariz com vontade, estavam as primeiras filas num pranto ao verem a lágrima deslizar pela cara do homem.
Até que o boneco falou, pela primeira vez, e disse - não tenho palavras.

Apagão

Era noite.
No maior continente do planeta, na mais vasta área urbana conhecida, deu-se um apagão. No inicio os geradores mantiveram-se em funcionamento, em bancos e hotéis principalmente, para segurança dos clientes. Passadas poucas horas o abastecimento dos geradores enfraquece e esgota-se a energia ali conservada. Uma multidão segue descoordenadamente às escuras guiada por tochas, velas e pequenas fogueiras que marcam o caminho. Essa massa de gente desesperada não se lembra como é viver na escuridão, dos benefícios desse silencio e sofre a angustia de enfrentar o desconhecido. É neste momento que o desconhecido engole o conhecido e os mundos se encontram.

A lembrança deste episódio ficara registada como uma noite que tinha começado por se mostrar perigosa, mas aos poucos, como acontece com os nossos olhos quando se habituam ao escuro, se tinha mostrado a mais serena noite de que houve historia - como se tivesse ocorrido uma misteriosa reconciliação entre mundos.

Entre opostos

O eco dos passos e as cedas bem como outros tecidos dos vestidos componhem a música de fundo. As pessoas falam num tom íntimo, de passagem. Estamos no corredor que serve de passagem entre o hall de entrada, onde se deixam os casacos e se colocam as máscaras que velarão pela idêntidade dos individuos, e os salões onde os rituais decorrerão. O corredor é a ligação entre o lá fora e o primeiro salão e o único espaço seguro desta noite. Em breve será fechado o seu acesso. Por enquanto os convidados entam de um lado, juntos, e conversam ainda. Quando chegam ao lado oposto, entreda do primeiro salão, vão sozinhas, silenciosas. Por isso é um lugar seguro, porque é previsivel. Ninguém controla os opostos, do racional colectivo, do irracional colectivo.

Geração

Um ovo gigante tinha viajado há mais de dois séculos de continente em continente na mala de um zoólogo que o tinha encontrado pousado num ninho e que pouco sabia da sua origem quando o recolheu. Encontrava-se agora num museu didáctico onde dezenas de crianças ouviam contar a sua história através das ideias dos adultos. Todas as crianças tinham a sua versão pessoal dos acontecimentos que expressavam em longas redacções. Umas diziam que estava lá dentro uma nova espécie animal, outras esperavam que ali estivesse a esperança de um novo ser humano, outras ainda suspeitavam que estavam ali contidas forças naturais estupendas. Na passada semana o museu noticiara que o ovo se tinha partido.

Pessoas impossíveis

Uma mulher e homem cego faziam juntos uma caminhada.
A mulher tinha pressa de chegar ao destino.
O cego não conseguia andar mais rápido por recear o que se apresentava à sua frente.
A mulher levou o cego às costas.
Chegou a meio do caminho cansada.
Foi então que se lembrou de lavar os olhos do cego, de os raspar na areia e voltar a colocá-los.
Assim fez. O cego já não era cego, mas agora preferia seguir nas costas.

Dia / Noite

Uma violenta queda de neve isolou a escola primária do resto da aldeia. Nos primeiros dias os pais preocupados procuram salvá-las tentando encontrar formas de furar a densa camada de neve que se tinha transformado entretanto em gelo. Aos poucos o tempo foi melhorando, mas por alguma razão o gelo não derretera e continuava a barrar o acesso. A vida da escola florescera com o bom tempo. Inicialmente as crianças procuravam os pais, choravam um choro aflito, mas aos poucos, na companhia uns dos outros, começavam a pressentir as vantagens de uma vida emancipada precocemente.

Muitos anos depois os pais perderam a lembrança dos filhos e estes dos pais e do espaço fora da escola. As crianças pensando que jamais seriam perturbadas pelo contexto exterior como a certa altura conheceram, seguiram um rumo sem consciência da sua singularidade. Na linguagem falada e escrita ainda se reconheciam os traços do que fora ensinado. Contudo a relação com o espaços, com os objectos e as relações pessoais adquiriam características completamente novas.

(Posfácio) O capitalismo infantiliza.
Surpreendentemente estas crianças, mais tarde adultos, eram extremamente responsáveis no cuidado de si próprias e no convívio com os outros.

Oralidade

A nova biblioteca foi construída secretamente a pedido de um déspota com ambições expansionistas. Longe de ser um idiota, este homem era bem instruído e sabia claramente como controlar o povo. A biblioteca sugaria Todo o conhecimento - em rigor, todo o conhecimento de todas as terras conquistadas. A partir do saber dos segredos dos povos dominaria as vontades humanas. A sua ambição não tinha limites. No entanto, o déspota tinha um recanto no seu modo de ser que entrava em conflito com a sua ganância, malvadez e vontade desgovernada de poder - esse recanto remontava ao tempo em que o conhecimento era contado pela boca das mulheres. Assim, a nova construção, tinha paredes de mais de cinco metros de espessura oca. Uma largura demasiado grande que surpreendia arquitectos e construtores daquele tempo. No seu interior foram albergadas mulheres que passavam o dia a contar o conhecimento que fora marginalizado. O principal ouvinte e único frequentador destas mulheres era o próprio déspota.

Corredores

Há muitos anos que tinha um mesmo sonho: que a sua casa tinha mais divisões do que as que conhecia. O sonho produzia nele uma angustia profunda de que estava num espaço que não dominava. Todas as outras vezes sossegou-se contando e descrevendo para si todas as divisões. Chegando ao final e não encontrando nada de suspeito acabava sempre por adormecer. Mas hoje acordou a ouvir o som abafado de um martelo do lado de lá da parede que sabia que dava directamente para a sala. Levantou-se e lançou-se à rua, pondo-se de frente à fachada da casa. Mediu várias vezes as divisões que da fachada podia identificar. E de facto…havia um espaço intermédio inexplicável. E uma porta ao lado da sua por onde entravam e a saiam pessoas que ele estava a ver pela primeira vez, que lhe acenaram e lhe desejaram as maiores felicidades.

O que repousa no escuro

Acontece um encontro casual entre o artista e um anónimo de entre a platéia do concerto que há minutos terminou. O anónimo conta uma história sua que começa agora ao artista que nesta reconhece sua mesma história que terminou há cinco anos. Neste momento, dois desconhecidos, sentados lado a lado, entendem-se numa intimidade única, pela singularidade de cada um e nas possibilidades de algo de tão único como o que sentem existir em multiplicado. A verdade não existe, disse no fim o artista. No entanto acabamos de olhar o mais escuro de nós e um do outro, disse-lhe num sorriso um dos anónimos da sua audiência dessa noite.

Sub

Os grandes centros urbanos albergam comunidades de homens e mulheres que se recusam a viver à luz do dia. Os canais abertos para a passagem dos metros subterrâneos estão repletas de inscrições, sinais que ajudam, mesmo na mais completa escuridão, que um elemento de uma determinada comunidade não se perca e que encontre sempre o seu caminho de volta. Infelizmente estas formas de viver na cidade são já conhecidas e motivo de estudo. O seu reconhecimento pelas autoridades levou-as a procurar outros níveis mais baixos onde não fossem encontradas. Os canais de saneamento, embora húmidos e repletos de animais indesejáveis, foram durante algum tempo uma possibilidade. No entanto, novos canais foram encontrados: as ruínas de antigas vivências sobre as quais se construíram sucessivamente cidades cada vez mais avançadas. A primeira comunidade a ocupar estes canais é particularmente dedicada ao estudo em reclusão, debatendo-se especialmente com o conceito do retorno – o retorno do novo no mesmo e em todo o lado.

Jogo

Três jovens jogavam às cartas e tentavam enganarem-se uns aos outros. Tinham passado assim dias a fio esbanjando fortunas de valor incalculável. Foram colocadas sucessivamente em cima da mesa fabulosas heranças, das propriedades à beira rio às jóias da família. Nada, absolutamente nada os demovia de continuarem a jogar num contexto que se aproximava da mais pura abstracção. Como crianças em festas de aniversário, aborrecidas com os brinquedos espalhados pela casa do aniversariante, e fartas dos palhaços contratados ou dos ilusionistas dos truques de lenços, fabricavam bens que não tinham apenas para se manterem animadas. Assim se mantiveram os três jovens que subindo a fasquia apostavam terrenos tão vastos que equivaliam ao terreno coberto por certos países. Quando se sentiram finalmente esgotados e prontos para terminar a sessão procuraram um vencedor de entre os três. Não encontraram um critério económico que lhes servisse de ajuda uma vez que os valores eram simplesmente impossíveis de apurar. Foi então que procuraram infinitamente novas estratégias de jogo para que este continuasse, talvez num outro dia.

Zona Teste Z

O jardim resplandecia a brancura da pedra calcária e das plantas de folhas brancas e sem flores. O branco reflectia a pouca luz que, por entre as nuvens, ilumina os dias desta zona terrestre. Uma chuva infinita caía, noite e dia, como reacção à ausência prolongada da utilização do petróleo. Era a Zona Teste Z do deserto, onde novas formas de viver eram experimentadas. Todos os habitantes da Zona Teste Z, muito atentos ás reacções dos experimentos, aprendiam a medir felicidade e tristeza a partir de análises clínicas feitas diariamente. A chuva procurava, harmoniosamente, equilibrio com a brancura estudada. As medições eram exactas e os habitantes eram emocionalmente iguais.